Os quadrinhos latino-americanos


As histórias em quadrinhos ganham as prateleiras das livrarias 

Infiltradas nos livros didáticos, as tirinhas da audaciosa Mafalda fazem do argentino Quino um dos maiores representantes dos quadrinhos latino-americanos. Juntam-se a ele, seu compatriota Fontanarrosa e os brasileiros Ziraldo, Glauco e Laerte, também consagrados artistas da América Latina.

Na região, o país que sai na frente na produção de quadrinhos é a Argentina. Para o arquiteto e idealizador da Gibiteca de Curitiba, Key Imaguire Jr., os “hermanos” têm uma proposta diferenciada e maior presença literária e gráfica. “Eles têm uma tradição muito forte, com muitos grandes artistas, boas revistas, diversidade, qualidade e quantidade”.

Imaguire conta que não existem traços que unificam a tradição latino-americana de quadrinhos. “O que temos na América Latina é uma produção tradicional no gênero, mas sem uma contribuição específica”, considera.

A designer e cartunista Thais dos Anjos concorda que não há uma identidade comum para os HQs de cada país, mas acrescenta que a cultura influencia no estilo dos artistas. Nos Estados Unidos, por exemplo, os super-heróis são presença garantida. As histórias em quadrinhos européias trazem um cunho mais filosófico, com temas existências. Já na América Latina, são comuns as  HQs com “uma bossa de humor, sarcasmo, uma desenvoltura em assuntos mais pesados”.

Com relação ao mercado brasileiro de HQs, Imaguire observa modificações englobando os quatro polos: da produção, do artista, do editor e do leitor. “A era dos ‘quadrinhos de banca’ foi substituída pela dos ‘quadrinhos de livraria’, o que representa uma postura mais séria das editoras em relação a esse mercado”.

Para Thais, o mercado nacional das HQs cresceu significativamente nos últimos anos, com um aumento na quantidade de editoras, desde especializadas em graphic novels até aquelas que acrescentaram o gênero às suas coleções. “Houve crescimento no número de tiragem, visibilidade e credibilidade”, avalia.

“Assim Falava Zaratustra - dos céus aos quadrinhos”

A HQ da paulistana Thais dos Anjos é uma adaptação da obra clássica do filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche para a história em quadrinhos. Em sua primeira publicação do gênero, foi a única mulher a ser indicada no 23º Troféu HQMIX, considerado o Oscar dos quadrinhos brasileiros. A designer concorreu em duas categorias: novo talento em roteiro e desenho, em setembro deste ano. Além disso, o trabalho conta com um prefácio escrito por Luiz Gê, um dos grandes nomes da HQ brasileira.

Para quem não conhece a história, Zaratustra é um profeta que desce das montanhas após 30 anos de isolamento e, na sua volta, prega ideias como a morte de Deus e também o "eterno retorno" das coisas. O livro usa uma forma poética e fictícia, frequentemente satirizando o Novo Testamento, para explorar algumas ideias de Nietzsche.

Na versão de Thais, Zaratustra cria forma, revelando ao leitor características psicológicas, além, e claro, de seu maior objetivo: transmitir a verdade e anunciar a vinda do Super Homem. A narrativa aborda questões contemporâneas, como a discussão sobre existência de um ser superior e os limites do conhecimento humano.

Texto: Ana Luiza Prendin e Vinícius Gallon/ Imagem: Vinícius Gallon e Acervo Pessoal



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