O Bonequeiro de Banfield

Foi numa viagem ao continente africano que o argentino de Banfield, Sergio Mercurio, resolveu que iria conhecer toda a América Latina. A decisão surgiu após a pergunta “o que é ser latino-americano?” e a envergonhada constatação de Sergio: “não sei”.

Quando voltou ao seu país, Sergio estava determinado a andar por todo o continente, mas não sabia de que maneira o faria. Nasce então um bonequeiro, ou como preferir, “titiritero”, em espanhol. O senhor Mercúrio passa então, a manipular seus bonecos e se apresentar, em 1992, pela América Latina, carregando consigo suas histórias. Seu primeiro espetáculo: El Titiritero de Banfield. 

Depois do episódio, foram-se quase 20 anos e histórias para contar da Argentina, Bolívia, Chile, Uruguai, Peru, Brasil, Equador, Colômbia, Venezuela, Costa Rica, Nicarágua, El Salvador, Honduras, Guatemala, até chegar ao México em 2004.

Após estrear seu primeiro espetáculo, Sergio seguiu com “El camino” e “De Banfield a México”. Criou um CD de contos, escreveu e editou livro, produziu e dirigiu filme, entre outros trabalhos. Por meio da arte dos bonecos de espuma, uma América Latina ia se desvendando para o titiritero, que se apresentou em asilos, cadeias, teatros, ruas e praças da AL. 

Trecho da carta de um jornalista, enviada a Sergio, após sua apresentação no Presídio do Ahú, em Curitiba, em 1999.

 “(...) Quando a apresentação para os detentos começou, eu olhava atentamente para buscar compreender a reação daqueles homens pobres, com pouco estudo, criminosos - segundo as leis - perante seus bonecos de espuma. Durante uma hora, creio que eles puderam esquecer que estavam ali, privados do mundo exterior, pagando pelos seus erros. Homens idosos, de barba e cabelos brancos, riam como crianças. Participaram ativamente do espetáculo, respondiam às provocações da bruxa Caca com empolgação. Confesso também que tive um pouco de receio, por você. Apesar da presença dos seguranças no local, temia que um deles não compreendesse uma ironia e resolvesse agredir você. Mas eu, que não tenho alma de artista, obviamente estava errado. Você, o artista, já sabia que aquela plateia, como outras plateias não convencionais que são alvo de seu trabalho, é a melhor das plateias. Pois ri quando quer rir, e chora quando se emociona. Sem as restrições que o pretenso intelectualismo provoca em públicos "habituais" de teatro. (...)”

Assista a trechos do espetáculo "El titiritero de Banfield"

 

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Texto: Karyme Kaminski / Imagem: Vinícius Gallon

 

 



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