Democratizar a comunicação para promover a integração
Os meios de comunicação têm papel fundamental na inclusão da sociedade nos processos e integração
A América Latina, chamada pelos povos originários de AbyaYala (terra de sangue vital) antes da chegada dos colonizadores europeus, possui uma grande diversidade cultural, com predominância indígena, africana e europeia. Ao longo da história, o continente vivenciou várias tentativas de integração desses povos. Porém, até hoje nenhuma delas foi capaz de concretizar esse compromisso. Um dos motivos apontados pelos especialistas é a falta de envolvimento da sociedade nos processos de integração. Neste sentido, o jornalismo pode ser um forte aliado, entendendo que uma população bem informada é capaz de incluir em seu dia-a-dia preocupações transmitidas pela mídia.
Contudo, nem mesmo os meios de comunicação dos países latino-americanos incluem significativamente a pauta da integração. Segundo Micheli Torinelli, jornalista do Soylocoporti, coletivo que luta pela integração da América Latina por meio da comunicação, afirma que esse descompromisso está ligado a anos de dominação europeia sobre os povos latinos. “Trata-se de uma questão de paradigma dominante, que é o ocidental: dominação da natureza por meio da técnica, individualismo, competição e soberania do método científico. Até o padrão de beleza atende aos parâmetros europeus. E esta cultura que predomina nos meios de comunicação de massa”.
Como consequência disso, a maior parte da sociedade que se informa pelos meios de comunicação hegemônicos, acaba recebendo apenas um tipo de discurso, majoritariamente negativo quando o assunto é América Latina. Como se observa na análise sobre a cobertura jornalística da Gazeta do Povo, realizada entre janeiro de 2010 e janeiro de 2011 pela CASLA. A pesquisa revelou que apenas 29% de todo o conteúdo produzido para a editoria Mundo falava sobre a América Latina, contra 71% de matérias sobre outras regiões, principalmente Estados Unidos e Europa. Desse total de matérias sobre a América Latina, 44% tiveram abordagem negativa, falando sobre narcotráfico, desastres naturais, enquanto que apenas 13% tinham abordagem positiva, sobre cultura e educação, por exemplo.
Uma das alternativas para modificar a inferioridade da América Latina diante das outras regiões, e valorizar as diversas culturas e sabedorias que constituem o povo latino-americano é a democratização da comunicação. Para Micheli, isso significa criar mecanismos de acesso para que os meios de comunicação cumpram sua função social, que é trazer a diversidade cultural à tona. “É o interesse público que deveria ser prioridade nos meios de comunicação, sendo essa relação entre meios de comunicação e sociedade um dos pilares fundamentais para uma democracia efetiva”, reforça.
No Brasil, a maior expressão de luta pela democratização da comunicação dos últimos anos foi a I Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), realizada em 2009 em Brasília depois de etapas municipais, estaduais e regionais. As principais reivindicações do evento são: “regulamentação da mídia, incentivo à produção regional e independente e descriminalização das rádios comunitárias. Com relação à internet, que possibilita a convergência de diversos meios, reivindica-se:
a) A liberdade do usuário na rede seja assegurada;
b) A implementação de um Plano Nacional de Banda Larga com gerência pública;
c) A universalizaçãodo acesso de qualidade a preços acessíveis;
d) Que a formação seja priorizada para garantir a efetiva inclusão digital, principalmente entre os menos favorecidos
No entanto, o governo brasileiro não tem colocado em prática todas essas propostas construídas na Confecom da forma desejada. Mesmo o Plano Nacional de Banda Larga, tão divulgado pela mídia, tem sido uma política pautada em interesses individuais das empresas de telecomunicação. “O que parece é que o governo não acredita ter condições de enfrentar o poderoso bloco que detêm o monopólio dos meios de comunicação no Brasil, preferindo fazer concessões a esses do que regulamentar a mídia.”, conclui Micheli.
Texto e imagem: Vinícius Gallon



