A
juíza Mariana Motta condenou Bordaberry como autor do crime
de atentar contra a Constituição, dentro do golpe
de Estado, e por ter sido coautor das violações aos
direitos humanos ocorridas durante sua gestão.
O presidente eleito democraticamente que se transformou
em ditador cumpre prisão domiciliar por outra condenação
a 30 anos de detenção, por responsabilidade pelo assassinato
de 14 uruguaios que desapareceram depois de ser presos durante se
governo de fato.
A advogada Hebe Martinez Burlé, que apresentou
a denúncia contra o ex-ditador, disse que a sentença
"não acresce anos de prisão a Bordaberry, que
hoje tem 81 anos, mas tem um enorme caráter simbólico
para o Uruguai".
Martinez Burlé lembrou, em declarações à
imprensa local, que a denúncia apresentada em 2002 foi apoiada
por 1.500 cidadãos de todos os partidos políticos.
"Não muda em nada o tempo de detenção
e não temos interesse nisso. A questão é que
para nós é emblemático, simbólico, que,
quando se viola a Constituição, quando há um
golpe de Estado, a longo prazo se vai pagar", disse a advogada.
Ela disse que este processo "não é
habitual no mundo, onde os ditadores são processados por
corrupção ou outros crimes, mas não especificamente
por dar um golpe". Essa decisão judicial "novamente
coloca o Uruguai como um exemplo de tradição democrática
", disse ela.
O regime militar teve início no Uruguai
no dia 27 de junho de 1973, com um golpe promovido pelas Forças
Armadas, com a colaboração de Bordaberry, então
presidente civil. Atingido pela violenta ofensiva da guerrilha marxista
dos Tupamaros, que se estendia desde o fim dos anos 60, o próprio
Bordaberry havia cedido parte de sua autoridade aos militares no
início de 1973.
Depois de praticamente destruir a guerrilha com
uma brutal contraofensiva, os militares foram expandindo seu controle
sobre a maioria das instituições nacionais, culminando
com o golpe que inaugurou um dos regimes militares mais repressores
da região. Em 1976, Bordaberry foi deposto e substituído
por Aparicio Mendez Manfredini.
Até a chegada ao poder da esquerdista Frente
Ampla, em 2005, uma lei de anistia de 1986 foi respeitada com todo
rigor pelos governos dos tradicionais partidos Colorado e Nacional
que se sucederam. Mas, com a chegada da coalizão de esquerda
ao governo, algumas das reivindicações que seus partidos,
assim como organizações cívicas e sindicais
do país, fizeram desde 1986 foram atendidas.
O atual presidente do Uruguai, em fim de mandato,
o socialista Tabaré Vázquez, deixou fora da Lei de
Caducidade alguns dos mais famosos casos de violações
de direitos humanos do país, mas sem chegar a promover a
anulação da norma.
Ao excluir de seu amparo os casos ocorridos fora
do Uruguai, essa interpretação da lei permitiu o julgamento
e a prisão de oito ex-policiais e ex-militares, além
dos ex-ditadores Gregorio Álvarez (1981-1985) e de Bordaberry,
que cumpre prisão domiciliar, por razões de saúde.
Vázquez deixa o poder no próximo
dia 1° de março, e será substituído pelo
aliado José Mujica, um ex-guerrilheiro tupamaro capturado
em 1972, que ficou 13 anos preso.
Estima-se que cerca de 200 pessoas desapareceram
durante a ditadura uruguaia, em uma época em que a maioria
dos países da América do Sul caíram sob regimes
autoritários, em conflito com grupos de esquerda, no âmbito
da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética.
Na Argentina, os julgamentos dos acusados de crimes
durante a ditadura foram retomados depois da revogação,
em 2005, das "leis do perdão" -- Ponto Final e
Obediência Devida-- aprovadas em 1986 e 1987, e que foram
consideradas inconstitucionais pela Suprema Corte do país.
Segundo números oficiais, 18 mil pessoas
desapareceram na Argentina durante o regime militar, embora organismos
de direitos humanos afirmem que as vítimas chegam a 30 mil.
No Brasil, onde o governo reconhece que houve ao
menos 475 mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura,
a Lei de Anistia impede processos contra os agentes do Estado envolvidos
em tortura e assassinato durante o regime militar e contra os membros
de grupos armados da oposição esquerdista que praticaram
sequestros e assassinatos politicamente motivados durante o período.
Atualmente, há uma polêmica em torno
do Plano Nacional de Direitos Humanos, elaborado em um conjunto
de conferências e encaminhado ao Congresso pelo governo, que
prevê a instituição de uma Comissão da
Verdade. A iniciativa foi vista por setores da Forças Armadas,
e pelo próprio ministro da Defesa, Nelson Jobim, como uma
forma de revanchismo, e até mesmo de tentar revogar aspectos
da Lei de Anistia.
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