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ESTUDOS SOBRE A HUMANIDADE (UMA ANTOLOGIA DE ENSAIOS) - Isaiah Berlin

(15/03/03)


Humanismo nascido da tragédia

Antologia apresenta os melhores ensaios do filósofo Isaiah Berlin

Virgílio Costa

PhD em artes e humanidades pela Universidade de Nova York e pesquisador em História na Casa de Rui Barbosa
Reprodução

Isaiah Berlin: um dos mais brilhantes ensaístas do século 20, o filósofo foi também testemunha da história


Organização de Henry Hardy e Roger Hausheer
Companhia das Letras, 717 páginas

R$ 63

Isaiah Berlin é um ensaísta maior do século 20. Nem em toda parte, porém, inclusive no Brasil, foi assim reconhecido. A presente antologia, oferecendo uma visão geral de seu pensamento, poderá ajudar a colocá-lo no devido altar.

Sua obra, nascida junto à tragédia, faz jus ao que de melhor tem o gênero humano. Isaiah Berlin, se não foi profeta, como o outro Isaías (o futuro dirá), foi testemunha. Sua vida, grande parte dela a de um plácido estudioso de Oxford, esbarra em alguns dos principais acontecimentos político-sociais do século 20.

Nasceu russo e judeu em Riga, na Letônia (então parte do Império Russo), e aos 6 anos foi para Petrogrado. Ali assiste às duas revoluções de 1917. Em 1920, Berlin consegue ir com os pais para a Inglaterra; estudou em Oxford, onde trabalhou e viveu. Dali observou a ascensão do fascismo e do nazismo. Durante a Segunda Guerra, a serviço do Ministério da Informação, foi para Washington (seus despachos chamaram a atenção de Churchill e se tornaram renomados); logo depois da guerra, ainda quentes as relações entre Inglaterra e URSS, o Foreign Office pede que vá para Moscou (vem daí a amizade com Boris Pasternak e Anna Akhmátova, relatada pateticamente num capítulo deste volume).

Volta a Oxford, agora um professor menos interessado em filosofia e mais em política e história; dali vê o século passar: a morte de Stálin, a fundação de Israel (para a qual muito colaborou, junto a Chaim Weizmann), a Guerra Fria, o fim da URSS. Considerado o maior ensaísta inglês contemporâneo, foi feito cavalheiro, tornou-se presidente da Academia Britânica, recebeu 23 doutorados honoríficos.

Sua vida é, assim, a de uma sutil testemunha de seu tempo, de fatos históricos assistidos de perto (amigos e parentes morreram ou padeceram na revolução e na guerra). Algo inaudito estava acontecendo, numa teia que, mais do que ninguém, ele (ao mesmo tempo russo, inglês e judeu) podia perceber a interligação: era preciso deixar testemunho sobre Pasternak, Akhmátova, Churchill, Roosevelt etc. O cidadão Berlin teve testemunho direto, ou com informações privilegiadas, de dois grandes holocaustos. Mas achou que seu dever era ficar em Oxford e, da placidez de um olho de furacão, pensar as causas daquilo tudo. Ao longo da extensa vida de pensador e escritor (morreu em 1997, aos 88 anos), tentou solucionar o dilema básico que acreditava existir na idade moderna: o dilema entre liberdade e igualdade.

Esta antologia pretende conter algumas das melhores coisas que o ensaísta escreveu e ser, ao mesmo tempo, uma síntese de sua obra. São 17 ensaios, mais de 700 páginas, ótima tradução da edição organizada na Inglaterra por Roger Hausheer e Henry Hardy (este o editor oficial, desde 1978, de todas as centenas de escritos e gravações, trabalho ainda em andamento; o wite www.berlin.wolf.ox.ac.uk dá conta dele). A seleção foi feita a partir dos livros de Berlin: Karl Marx: sua vida e ambiente; A idade do Iluminismo: os filósofos do século 18; Quatro ensaios sobre a liberdade (que inclui 'Dois conceitos de liberdade': a liberdade negativa, ou inexistência de restrições, e a positiva, a partição de obrigações impostas pelo Estado); Vico e Herder: dois estudos na história das idéias; Pensadores russos (com o tão famoso 'O ouriço e a raposa', e estudos sobre Bakunin, Turguenev, Belinski, Herzen, etc.); Ensaios filosóficos; Contra a corrente: Ensaios de história das idéias (com o importantíssimo 'A originalidade de Maquiavel', e outros sobre o Contra-Iluminismo, Montesquieu, Hume, Marx, Verdi, nacionalismo, etc); Impressões pessoais (os depoimentos sobre Pasternak, Akhmátova, Churchill, Roosevelt, e outros); O pau torto da humanidade: capítulos na história das idéias ('Joseph de Maistre e as origens do fascismo', 'Vico e a história cultural', nacionalismo etc.). O universo de autores e obras com que dialoga é estonteante. Neste labirinto, Berlin enfrenta algumas das questões básicas da modernidade: Do que se trata? Que impasse contém? Como sair dele?

Entre centenas de citações (às vezes as citava de memória, e de muitas delas até hoje seu editor procura a fonte), Berlin tinha predileção especial por duas, que usou repetidamente. Uma, o fragmento do poeta grego Arquíloco (século 7 a.C.): 'A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma grande coisa.' Usou-a como título e conceito básico no ensaio sobre a filosofia da História em Tolstói. Sugere que a divisão entre ouriços e raposas estaria em toda a humanidade: ouriços seriam Dostoiévski, Platão, Dante; raposas seriam Shakespeare, Aristóteles, Pushkin. É que os ouriços tendem a ver uma única explicação causal para tudo, e o que vêem adaptam a ela. As raposas, ao contrário, tendem a encontrar explicações diferentes em cada nova coisa que encontram. Vê como ouriço a tendência, preponderante na modernidade, de ter uma compreensão científica, causal, para a história, e credita isso ao Iluminismo e ao sucesso da ciência e da tecnologia: uma vez 'iluminada' pela razão, a humanidade se libertará.






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